STORY · TRIBUNAL

100x: a ascensão e a queda da BitMEX

De Lamborghinis alugadas a um banco enganado e um processo criminal de 100 milhões de dólares — a história completa da exchange que inventou o perpetual swap.

Três ex-banqueiros construíram o motor do mercado cripto moderno — e quase entraram na cadeia dirigindo-o. A história da BitMEX: de Lamborghinis alugadas a um banco enganado, um processo criminal de 100 milhões de dólares, um indulto presidencial e uma última e irônica ação judicial no mesmo dia do anúncio do fim.

Três Lamborghinis

Maio de 2018, Manhattan. Diante das portas da Consensus, o maior congresso cripto daquele ano, três Lamborghinis brilham ao sol. São alugadas. Ninguém as dirige. Estão ali só para serem vistas — e fotografadas pela imprensa americana.

É a assinatura de um homem que já era, então, o nome mais rico e mais atrevido dos derivativos cripto: Arthur Hayes, CEO da BitMEX. Mais tarde ele chamaria a jogada de “um sucesso”, medido pela quantidade de atenção que rendeu na mídia americana.

Esse detalhe — três esportivos como outdoor, plantados em solo americano — não está numa revista. Está, anos depois, preto no branco numa denúncia do Ministério Público dos Estados Unidos. Porque era exatamente essa atenção americana que era o problema. A BitMEX havia declarado oficialmente que tinha saído dos Estados Unidos. Na prática, estacionava suas Lamborghinis na porta.

As três Lamborghinis alugadas da BitMEX na Consensus, em Manhattan
Três Lamborghinis. Os esportivos alugados com que a BitMEX atraiu a imprensa americana durante a Consensus 2018.

Três homens e uma alavanca

Não começa numa garagem, mas nas mesas de operações de Hong Kong. Arthur Hayes se forma em 2008 na Wharton e vira trader de derivativos no Deutsche Bank em Hong Kong, depois no Citigroup, onde se torna market maker de ETFs. Em 2013, é demitido. Para a maioria seria um baque; para Hayes, foi o lance que mudou tudo.

Ele conhece dois homens capazes de construir o resto. Ben Delo, matemático de Oxford com passagem pelo JPMorgan. E Samuel Reed, o programador, o construtor da casa de máquinas. Em janeiro de 2014 fundam a BitMEX — por extenso, Bitcoin Mercantile Exchange. Juntos, os três detêm cerca de 90% da empresa.

Sua grande invenção não é uma moeda. É um contrato: o perpetual swap — um futuro sem data de vencimento, com um mecanismo de funding que mantém o preço colado ao mercado spot. Soa técnico. É transformador. O perpetual swap vira o padrão de toda a indústria de derivativos cripto; hoje praticamente toda grande exchange roda em cima dele. Esse é o legado real da BitMEX — e a razão pela qual esta é uma história de talento e imprudência ao mesmo tempo.

A máquina

A BitMEX gira em torno de uma palavra: alavancagem. Em 2015 dá para operar com 50x. A partir de março de 2017, com 100x — para cada dólar depositado, você move cem dólares no mercado. Toda a margem é em bitcoin. É a máquina de apostas mais viciante que o mercado cripto tinha visto até então: um solavanco na cotação e sua posição evapora.

E é aí que está o cerne. Quando sua posição vira contra você, entra em ação o liquidation engine. O que acontece então com o resto da sua garantia, e quem ganha com essas liquidações, viraria anos depois o objeto de processos judiciais. A BitMEX tinha um insurance fund que crescia a cada liquidação — e, este é o ponto controverso, uma mesa interna de market making que operava na própria plataforma. Hayes admitiu que a mesa existia e que operaria “à distância”.

Importante saber

O que está provado e o que não está

Que a mesa interna operasse ativamente contra os clientes nunca foi provado acusado. É uma acusação — formulada de forma mais afiada numa ação coletiva de julho de 2026. O que é certo é que a estrutura configurava um conflito de interesses estrutural: a exchange era ao mesmo tempo árbitro, banqueiro da casa e possível contraparte.

Para o trader de varejo que apostava as economias com 100x, o desfecho era previsível. A maioria perdeu. A máquina seguiu girando.

Retrato em preto e branco de Arthur Hayes
O homem por trás do perpetual. Arthur Hayes transformou a alavancagem de 100x em culto.

O truque das Seicheles

Como se mantém uma máquina dessas fora do alcance do regulador mais duro do mundo? Mudando-a de lugar — no papel. Em setembro de 2015, exatamente quando a CFTC americana declara que o bitcoin é uma commodity, a BitMEX anuncia que “se retira do mercado americano” e se constitui nas Seicheles.

Subornar um regulador nas Seicheles não custava mais do que “a coconut” — um coco.Arthur Hayes, registrado em vídeo. A frase perseguiria o caso.

Talvez fosse piada. Mas em cinco palavras a frase capturou exatamente a postura da BitMEX diante da supervisão: algo que se contorna, não algo que se cumpre. Porque a saída dos EUA era teatro. Da denúncia:

E aí vêm as Lamborghinis. E as aparições de Hayes na TV americana. E um escritório em Manhattan, de onde funcionários fazem atendimento e marketing — para clientes americanos.

O banco que foi enganado

Uma exchange que fatura bilhões em bitcoin precisa converter isso em dólares de verdade em algum lugar. E nenhum banco decente quer a conta de uma exchange de derivativos sem licença e sem KYC. Então a BitMEX constrói um desvio — e é aqui que a história passa de “driblar regras” para fraude pura e simples.

Em julho de 2015, a BitMEX compra uma empresinha de Hong Kong, a Shine Effort Inc. Limited. Um mês depois, “vende” a Shine Effort por um dólar ao cofundador Ben Delo. No papel, Delo é o dono; na prática, conforme uma Declaration of Trust secreta assinada por Hayes, a BitMEX continua sendo a proprietária real.

Delo abre uma conta bancária em nome da Shine Effort. E ao banco a BitMEX conta uma história: a Shine Effort seria uma empresa de “Information Technology”, Delo o único dono, a BitMEX no máximo uma “cliente”. Tudo mentira. A Shine Effort é um canal: a BitMEX converte bitcoin em dólares por ali, paga salários — inclusive da mesa de market making —, distribui dividendos e envia dinheiro para exchanges americanas.

Total que passa por essa conta obtida com mentiras, entre 2015 e 2019: mais de 100 milhões de dólares. Toda vez que o banco faz perguntas, Hayes e Delo repetem a mentira. Isso não é mais zona cinzenta — é enganar deliberadamente um banco internacional para manter acesso ao sistema do dólar americano.

Torre bancária no distrito financeiro de Hong Kong
O banco que foi enganado. O dinheiro corria para a BitMEX pela empresa de fachada Shine Effort.

Os alertas que ninguém levou a sério

O mais perigoso numa exchange sem KYC não é o que você não sabe. É o que você sabe e ignora.

Em maio de 2018, executivos — entre eles Hayes — recebem a informação de que a plataforma está sendo usada para lavar o produto de um hack cripto. Reação: nenhuma política antilavagem. Relatórios internos mostram que clientes do Irã — sob sanções americanas — operam na plataforma; Hayes e Delo chegam a se comunicar pessoalmente com clientes que se identificam como iranianos. Reação: nenhuma política antilavagem.

Do lançamento em 2014 até setembro de 2020, a BitMEX não apresentou um único Suspicious Activity Report. Zero. Em seis anos.

A máquina tinha virado, nas palavras da denúncia, “um veículo para lavagem de dinheiro e evasão de sanções”. Não por acaso — a cegueira embutida era o modelo de negócio.

1º de outubro de 2020: a batida na porta

Durante seis anos a BitMEX parece intocável. Em 1º de outubro de 2020, isso acaba. Na mesma manhã, duas autoridades abrem fogo ao mesmo tempo: a CFTC, com ação civil, e o Ministério Público de Manhattan mais o FinCEN, com o lado criminal. A acusação: operar conscientemente como exchange de derivativos sem licença e violar deliberadamente o Bank Secrecy Act.

E então fica físico. Samuel Reed, o CTO, é preso naquele dia em Massachusetts; sai sob fiança de 5 milhões de dólares. Hayes e Delo se mantêm afastados a princípio. Só em abril de 2021 Arthur Hayes se entrega — não em Nova York, mas no Havaí, em solo americano, porém o mais longe possível de Manhattan. Sai sob fiança de 10 milhões de dólares. O rei da alavancagem de 100x está, pela primeira vez, do lado errado do risco.

Retrato em preto e branco de Arthur Hayes
1º de outubro de 2020: a batida na porta. Reed é preso em Massachusetts; Hayes se entrega depois no Havaí.

O acerto de contas

O que se segue é um desmonte lento. Em 2022, os fundadores se declaram culpados de violar o Bank Secrecy Act. Sem prisão: penas suspensas e prisão domiciliar, além de 10 milhões de dólares cada em multa civil à CFTC — 30 milhões no total. O acordo com os reguladores é maior do que os próprios homens: 100 milhões de dólares no caso CFTC/FinCEN.

E então, em julho de 2024, a própria empresa — HDR Global Trading Limited — se declara culpada. Em 15 de janeiro de 2025, sai a sentença: 100 milhões de dólares de multa criminal e dois anos de probation. O tribunal reconhece o que a denúncia já dizia: anos de operação ilegal, falha completa em KYC e prevenção à lavagem, e um banco enganado para bombear milhões pelo sistema americano.

O perdão e o último dia

A história deveria acabar aqui. Ela ganha duas caudas.

28 de março de 2025. O presidente Trump concede indulto — a Hayes, Delo, Reed, Dwyer e à própria entidade HDR. As multas já estavam pagas, mas os antecedentes criminais são apagados. Para quem leu a denúncia, é uma nota de rodapé amarga: as provas continuam de pé, só as consequências evaporaram.

E então, mais de um ano depois, o desfecho. 23 de julho de 2026. A BitMEX anuncia que encerra as atividades após onze anos — a exchange fecha em 23 de setembro de 2026. Uma “reavaliação estratégica”. No exato mesmo dia, surge uma ação coletiva que traz de volta a velha suspeita: teria existido uma mesa interna de “Insider Trading Desk” com “God access” — visão completa das posições dos clientes e dos preços exatos em que seriam liquidados — que operava com base nisso, inclusive durante congelamentos de servidor. O pedido: 622,66 bitcoins, cerca de 40 milhões de dólares. A BitMEX chama o caso de “spurious and opportunistic” acusado.

Nada disso está provado. Mas o timing é poético: no dia em que a máquina anuncia o fim, a acusação mais antiga volta à tona — e desta vez não há indulto que apague uma ação civil.

Quadro · uma ação civil, não uma condenação

“US$ 125.000 para rasgar o contrato”

Antes de os reguladores encontrarem a BitMEX, já havia gente dizendo ter sido enganada — os próprios primeiros investidores de Hayes. Em maio de 2020, Frank Amato (ex-JPMorgan), a RGB Coin Ltd e, depois, Elfio Capone processam a BitMEX e Hayes em 540 milhões de dólares. A versão deles: eram os primeiríssimos investidores-semente, abordados em 2015 pelo LinkedIn quando a BitMEX ainda era “uma ideia sem financiadores”, com a promessa de que o aporte viraria participação societária de verdade.

Segundo os autores, essa participação nunca veio. Depois de insistir muito, Capone teria recebido uma única oferta: 125.000 dólares “para rasgar o contrato”. Ele recusou. acusado

Acusações de uma ação civil, contestadas pela BitMEX/Hayes. O padrão descrito pelos autores — grandes promessas e uma saída que só convém a quem promete — reaparece cinco anos depois num banco enganado.

O que fica

A BitMEX deixa duas coisas. A primeira é inegável: o perpetual swap, o contrato que Hayes ajudou a desenhar, é a espinha dorsal de todo o mercado moderno de derivativos cripto. Todo trader que hoje abre um perp está operando no legado de três ex-banqueiros de Hong Kong.

A segunda é um alerta. A BitMEX provou até onde uma exchange offshore pode ir: sem KYC, sem prevenção à lavagem, um banco enganado, um bloqueio de IP como folha de parreira e uma estrutura desenhada justamente para que a supervisão não a alcançasse. Provou também que a conta acaba chegando — ainda que tarde, e ainda que uma única assinatura tenha apagado boa parte das consequências criminais.

E aí está a lição para quem hoje escolhe onde operar. A diferença entre a BitMEX e uma exchange europeia licenciada sob MiCAR ou MiFID II não é marketing. É uma estrutura jurídica: dinheiro de clientes segregado, um procedimento obrigatório de reclamações, uma entidade localizável com um regulador capaz de intervir — e a proibição de a exchange operar como contraparte contra os próprios clientes. Exatamente as quatro coisas que a BitMEX não tinha.

As Lamborghinis voltaram há muito tempo para a locadora. A pergunta que a BitMEX deixa continua de pé: quem é a contraparte quando você aperta o botão?

Fontes

Base: o documento de Information apresentado pelo Ministério Público (justice.gov). Além disso: confissão de culpa no DOJ (jul 2024) e sentença de US$ 100M (jan 2025); CFTC US$ 100M e fundadores US$ 30M; prisão de Reed (The Block); Hayes no Havaí (Cointelegraph); indulto de Trump (CNBC); ação coletiva e encerramento (CoinDesk); “coconut” e ação de investidores de US$ 540M (Finance Magnates).