STORY · COMEBACK

Winklevoss: a vingança dos gêmeos

Perderam para Zuckerberg, foram pintados por Hollywood como os vilões e apostaram o dinheiro do acordo em bitcoin. Como os gêmeos subestimados viraram os primeiros bilionários do bitcoin — e onde o conto de fadas rachou.

Foram roubados na ideia por trás do Facebook, ridicularizados como os perdedores do Vale do Silício e retratados por Hollywood como filhinhos mimados. Então Cameron e Tyler Winklevoss pegaram o dinheiro do acordo, apostaram em algo que quase ninguém levava a sério — bitcoin — e viraram os primeiros bilionários do bitcoin do mundo. Esta é a história dos gêmeos que perderam para Zuckerberg e venceram a história. E da rachadura nesse conto de fadas.

Harvard: a ideia

Para entender por que esta é uma história de vingança, é preciso voltar a Harvard, 2003. Dois gêmeos idênticos, Cameron e Tyler Winklevoss — altos, atléticos, remadores que mais tarde iriam às Olimpíadas de 2008 pelos EUA —, trabalham com o colega Divya Narendra numa ideia: uma rede social fechada para estudantes de Harvard, a HarvardConnection (depois ConnectU).

O site está quase pronto, mas falta um programador para fechar o serviço. Encontram um aluno do segundo ano conhecido como programador brilhante: Mark Zuckerberg. Explicam o plano, dão acesso a ele e esperam que termine.

Ele não termina. Enrola os dois por semanas com desculpas de estar ocupado — e, enquanto isso, lança sua própria rede social. Chama-se thefacebook.com.

Imagem — placeholderHarvard, 2003: os gêmeos com a ideia, e o programador que a levou emboraSubstituir depois por imagem própria

A traição

Para os irmãos, parece roubo em plena luz do dia. O conceito era deles, parte do código tinha sido escrita a pedido deles, foram eles que deixaram Zuckerberg entrar — e agora assistem à ideia deles, construída pelo programador deles, virar a empresa que mais cresce na sua geração.

Fazem o que gente lesada faz: vão à Justiça. Em 2004 processam Zuckerberg por roubo da ideia e do código-fonte. Vira uma guerra de trincheiras jurídica que dura anos, enquanto o Facebook fica maior e mais poderoso a cada mês.

O acordo de 65 milhões

Em 2008 sai um acordo. O Facebook paga aos irmãos e a Narendra 65 milhões de dólares: 20 milhões em dinheiro e 45 milhões em ações do Facebook anteriores ao IPO. Para a maioria das pessoas, uma fortuna. Para os gêmeos Winklevoss, o começo de uma nova briga.

Porque logo passam a achar que foram lesados — que as ações tinham sido avaliadas alto demais no acordo e que, portanto, receberam de menos. Tentam reabrir o negócio e litigam até a corte federal de apelações. Ali, em 2011, tudo trava num acórdão que virou clássico, escrito pelo juiz Alex Kozinski:

At some point, litigation must come to an end. That point has now been reached.Juiz Alex Kozinski, U.S. Court of Appeals, 2011 provado

A mensagem: vocês sabiam o que estavam assinando. Acordo é acordo. Os irmãos tiveram de aceitar seus 65 milhões — e seguir em frente. O que não sabiam é que era justamente esse “seguir em frente” que os deixaria mais ricos do que o Facebook jamais os teria deixado.

Hollywood os transforma em vilões

Como se a derrota não bastasse, em 2010 estreou A Rede Social — o filme premiado com o Oscar sobre o nascimento do Facebook. Nele, os irmãos aparecem como atletas privilegiados e ressentidos: os bad guys da história, o contraponto ao gênio marginal Zuckerberg. Um único ator interpretou os dois, com truques digitais.

Os Winklevii de carne e osso tiveram de ver o mundo conhecê-los como os perdedores chorões. Tyler resumiu depois a humilhação pública com uma frase seca que remetia ao remo e ao tamanho dos dois:

I'm 6'5", 220 pounds, and there are two of me.Tyler Winklevoss, sobre como as pessoas os subestimavam

É exatamente isso: ser subestimado. E é esse o combustível do que vem a seguir.

A aposta

Em 2012, os gêmeos ouvem falar a sério de bitcoin pela primeira vez — a lenda diz que numa espreguiçadeira em Ibiza, pela boca de outro empreendedor. Enquanto o resto do mundo financeiro descarta o bitcoin como brinquedo de nerd e de criminoso, os irmãos veem outra coisa: digital, escasso, fora do alcance dos bancos e das instituições que um dia os atropelaram.

E fazem algo que, naquele momento, parece temerário. Colocam uma fatia grande do acordo com o Facebook — cerca de onze milhões de dólares — em bitcoin, a cotações em torno de dez dólares. Compram tanto que, a certa altura, estima-se que detenham cerca de um por cento de todo o bitcoin do mundo, mais de cem mil moedas.

Preferimos bitcoin a dinheiro parado no banco.Teor da convicção inicial dos gêmeos Winklevoss sobre o bitcoin

Eles não guardam as chaves de qualquer jeito. Segundo a própria versão, cortam as private keys em pedaços, criptografam tudo e espalham por cofres de banco pelo país inteiro — paranoico, meticuloso e, em retrospecto, sensato. E então fazem o mais difícil de tudo: seguram, por anos, enquanto a cotação sobe e desce violentamente.

Imagem — placeholder~US$ 11 milhões em bitcoin, a ~US$ 10 por moeda: a aposta que construiu o impérioSubstituir depois por imagem própria

Gemini: a vingança dos nerds

Os irmãos são espertos demais para só esperar uma cotação subir. Querem tornar a cripto respeitável — e ser donos da infraestrutura dela. Em 2014 fundam a própria exchange: a Gemini, batizada com o nome da constelação dos gêmeos.

E a estratégia deles chama atenção: enquanto a maioria das exchanges cripto foge da supervisão para ilhas offshore, os Winklevii fazem o contrário. Constroem a Gemini deliberadamente como a exchange mais obediente às regras dos Estados Unidos. Conseguem uma licença de Nova York, abraçam os reguladores e transformam o “somos a opção chata, segura e regulada” em toda a sua marca. O slogan vira quase um lema de vida: “Ask for permission, not forgiveness” — peça permissão, não perdão. Exatamente o oposto da cultura do Vale do Silício que um dia os roubou.

Por volta de 2017, quando o bitcoin dispara para milhares de dólares, o mundo vira. Os milhões que tinham escondido em pedaços em cofres de banco valem agora bilhões. Os perdedores ressentidos do filme sobre o Facebook viraram os primeiros bilionários do bitcoin do mundo. Os gêmeos subestimados tinham o fôlego mais longo de todos.

O ETF que não foi autorizado

Nem tudo deu certo. Durante anos, os irmãos tentaram ser os primeiros a listar um ETF de bitcoin — um fundo com que investidores comuns pudessem entrar em bitcoin pela corretora. Em março de 2017, a SEC americana rejeitou o pedido; uma segunda tentativa naufragou em 2018. O motivo: para a SEC, o mercado de bitcoin ainda era pouco regulado e vulnerável demais a fraudes.

É uma ironia dolorosa para os agentes mais obcecados por regras do setor: justamente eles ouviram o “não”. Só anos depois, em 2024, outros conseguiriam passar o ETF de bitcoin pelo portão. Os Winklevii tinham razão — só que cedo demais.

A rachadura no conto de fadas

Uma história honesta não pode parar na glória. Porque a imagem de “somos a exchange segura e regulada” levou um baque sério — e a lição que vem daí é exatamente o assunto deste site.

A Gemini oferecia um produto chamado Gemini Earn: os clientes podiam emprestar sua cripto e receber juros. Mas, na prática, a Gemini repassava essa cripto a um terceiro, a credora Genesis. Quando o mercado cripto desabou em 2022 e a Genesis caiu, centenas de milhares de clientes do Earn ficaram presos: seus saldos — no auge, algo entre 900 milhões e mais de um bilhão de dólares — foram congelados.

As consequências foram jurídicas. A SEC processou a Gemini e a Genesis por considerar que o Earn era um valor mobiliário não registrado. O regulador nova-iorquino DFS e o Ministério Público estadual vieram por cima. No fim, a Gemini fechou um acordo em 2024: prometeu ressarcir integralmente os clientes por meio da falência da Genesis, além de dezenas de milhões em multas e compensações. No início de 2026, SEC e Gemini encerraram o processo — constatando que os clientes do Earn já tinham recuperado 100% dos seus saldos.

Mesmo a exchange mais ‘regulada’ pode colocar o seu dinheiro em risco no instante em que ele sai pela porta dentro de um produto de rendimento.A lição do Gemini Earn

O desfecho foi, portanto, relativamente bom para os clientes — mas só depois de dois anos de incerteza, falências e batalha judicial. Que os irmãos tenham conseguido sair lutando dessa crise combina com a história deles. Que a crise tenha surgido justamente na empresa que fez da “segurança” sua marca é o alerta.

Imagem — placeholderGemini Earn: como a cripto dos clientes congelou via Genesis quando o mercado caiuSubstituir depois por infográfico próprio

O que os gêmeos provam

A história dos gêmeos Winklevoss é a mais alegre desta série — nada de cofre saqueado, de foragido, de pena de prisão. É uma história de paciência, de estar certo contra o escárnio geral e de uma aposta que poucos teriam coragem de fazer. Isso merece ser celebrado.

Mas ela também traz a lição mais sóbria de todas, e ela vale até para os “mocinhos”. Uma marca forte, uma licença de verdade e as melhores intenções não protegem você automaticamente quando a sua cripto entra num produto de rendimento. No instante em que o seu saldo é emprestado pela exchange a um terceiro, você deixa de ser cliente de custódia — vira um credor que só pode torcer para que esse terceiro fique de pé. É exatamente por isso que as regras europeias da MiCAR insistem na segregação do dinheiro dos clientes e em informação cristalina sobre o que acontece com os seus ativos: a exchange guarda ou empresta?

Os gêmeos que perderam para Zuckerberg venceram no longo prazo. Mas até a história deles termina na mesma pergunta que sustenta todas as outras: quando você clica em ‘concordo’ diante de um rendimento atraente — quem fica com as suas moedas naquele momento, e o que acontece se essa parte cair?

Fontes

Acordo de US$ 65M (2008) e origem do Facebook: Reuters. Kozinski, “litigation must come to an end” (9th Circuit, 2011): CBS News, Above the Law. ~US$ 11M em bitcoin → bilionários, ~1% de todo o bitcoin: The New York Times, Celebrity Net Worth. ETF de bitcoin rejeitado (2017, 2018): CoinDesk, CNBC. Gemini Earn / Genesis / NYAG, US$ 1 bi devolvido e US$ 37M de multa: Fortune; SEC encerra o processo, clientes ressarcidos em 100% (2026): CoinDesk.