Começou como um site para trocar cartas colecionáveis e cresceu até se tornar o lugar onde sete de cada dez bitcoins do mundo eram negociados. Então 850.000 bitcoins evaporaram. Esta é a história da Mt. Gox — o primeiro rei do mercado cripto, o nerd que levou a culpa e os hackers russos que eram os verdadeiros autores.
Um site de troca de cartas mágicas
Só o nome já denuncia o quanto tudo começou pequeno. Mt. Gox — por extenso, Magic: The Gathering Online Exchange. O programador Jed McCaleb registrou o domínio em 2007 para que jogadores trocassem cartas de fantasia. Quando aquilo não pegou, ele o transformou, em 2010, em outra coisa: um lugar onde se podia comprar e vender aquela estranha moeda digital nova, o bitcoin.
Foi uma brincadeira que saiu do controle. Em menos de um ano, a Mt. Gox era a maior exchange de bitcoin do mundo. E McCaleb, que tinha coisas melhores para fazer, se desfez dela no início de 2011 — vendendo-a a um francês em Tóquio.
O rei francês de Tóquio
O francês era Mark Karpelès: um programador de óculos, jeito manso, que lembrava mais um personagem tímido de anime do que um tirano das finanças. Mudou-se para Tóquio, falava um japonês precário e comandava, de um escritório apertado, aquilo que em ritmo alucinante virou o coração pulsante de todo o mercado cripto.
No auge, cerca de 70% de todas as transações de bitcoin do planeta passavam pela Mt. Gox. Milhões de dólares por dia corriam pelos servidores desse único homem. Karpelès tinha as chaves do reino — literalmente, porque era ele quem administrava as carteiras. Ele era o rei.
Mas um rei sentado sobre um vulcão.
O caos nos bastidores
Por trás do sorriso havia uma bagunça de proporções épicas. A segurança era amadora: as private keys estavam espalhadas por hot wallets como se fossem balas de goma. Praticamente não existia contabilidade decente nem registro de logs. Os clientes reclamavam cada vez mais de saques travados. E na própria exchange rodava, ao que tudo indica, um robô de trading — mais tarde apelidado de “Willy” — que empurrava a cotação para cima artificialmente.
Karpelès continuava dizendo que estava tudo sob controle. Na prática, ninguém sabia de verdade quanto bitcoin ainda havia no cofre. E isso não era um detalhe. Isso era, como se veria depois, o problema inteiro.
O dia cinzento de fevereiro
No início de fevereiro de 2014, a Mt. Gox congela os saques “por motivos técnicos”. A tensão cresce. E então, por volta de 24 de fevereiro de 2014, o site simplesmente sai do ar. Poucos dias depois, a empresa entra com pedido de recuperação judicial no Japão.
Cerca de 850.000 bitcoins tinham “desaparecido” — algo como 450 milhões de dólares. O maior roubo que a internet havia visto até então.Pedido de falência da Mt. Gox, fevereiro de 2014 provado
Desses 850.000 bitcoins, cerca de 750.000 pertenciam a clientes. O Reddit explodiu. As pessoas queriam sangue. E o francês de óculos deixou de ser o rapaz que virou rei por acaso para se tornar o vilão da história.
O vilão que todos queriam
A polícia japonesa prendeu Karpelès em agosto de 2015. A acusação: peculato e manipulação de registros contábeis. No tribunal, lá estava ele — calado demais, com os mesmos óculos — enquanto os promotores pediam dez anos de prisão por desviar milhões em dinheiro de clientes.
O mundo tinha seu culpado. A história parecia encerrada. Mas a conta não fechava.
A reviravolta
Em março de 2019 saiu a sentença, e ela surpreendeu todo mundo. O tribunal de Tóquio absolveu Karpelès do peculato — ele agira, entendeu o juiz, sem dolo. Foi condenado apenas por mexer nos registros digitais: pena suspensa de 2,5 anos. Nada de cadeia. O rei tinha sido uma bagunça, não um ladrão.
Mas então quem roubou os 850.000 bitcoins? A resposta só veio anos depois, e do outro lado do mundo. Em junho de 2023, o Departamento de Justiça dos EUA tornou pública uma acusação contra dois russos: Alexey Bilyuchenko e Aleksandr Verner.
Já desde setembro de 2011 os hackers tinham invadido um servidor da Mt. Gox no Japão — e drenaram o cofre até pelo menos 2014. No mínimo 647.000 bitcoins.Denúncia do US DOJ, junho de 2023 provado
Leia de novo. Desde 2011 — antes mesmo de Karpelès entender direito o que tinha comprado — a Mt. Gox já sangrava. As moedas escoavam ano após ano, sem que ninguém notasse, enquanto o francês seguia acreditando que o cofre estava cheio. Ele não herdou um império: herdou um navio furado. E o dinheiro roubado foi lavado por outra exchange famigerada, a BTC-e, tocada pelo mesmo Bilyuchenko ao lado do russo Alexander Vinnik.
O tesouro que reapareceu
E aí vem a virada que transforma tudo isso num romance de aventura. Enquanto o processo de falência se arrastava por anos, o administrador judicial encontrou algo num formato antigo e esquecido de carteira: cerca de 200.000 bitcoins que ninguém tinha no radar. O mapa do tesouro saindo de uma gaveta empoeirada em Tóquio.
Essa descoberta mudou tudo. Porque os bitcoins que em 2014 tinham “evaporado” a uns 450 milhões de dólares valiam, agora, um múltiplo disso. Em 2024, o administrador Nobuaki Kobayashi finalmente começou a pagar — não em dólares, mas em bitcoin e bitcoin cash. Credores que tinham passado dez anos no escuro receberam de volta moedas que entretanto tinham virado ouro.
O caso ainda se arrasta: o prazo de reembolso foi empurrado para 31 de outubro de 2026, e a massa falida ainda mantém dezenas de milhares de bitcoins — a maior herança não liquidada de qualquer exchange caída. Doze anos depois do colapso, a Mt. Gox ainda não terminou de pagar os mortos.
O que a Mt. Gox nos ensinou
Nenhuma outra história moldou tão profundamente o mercado cripto. A Mt. Gox foi o trauma original: o momento em que uma geração aprendeu que “deixar suas moedas numa exchange” significa que outra pessoa tem as suas chaves. Dessa dor nasceram os hábitos que hoje são padrão: cold storage, a exigência de Proof of Reserves e, por fim, o clamor por supervisão de verdade, que na Europa desembocou na MiCAR — com segregação obrigatória do dinheiro dos clientes e uma entidade localizável e responsável.
Porque é essa a diferença eterna que a Mt. Gox escancarou. Numa exchange sem supervisão e sem segregação do dinheiro dos clientes, você não é o dono do seu bitcoin — você é um credor. E se um dia o cofre estiver vazio, pode levar doze anos até você descobrir quanto ainda sobrou.
O rei francês perdeu o trono há muito tempo. Mas a pergunta que ele deixou continua de pé: você tem certeza de que o cofre está cheio — e quem está com a chave?
Fontes
Sentença de Karpelès (absolvido de peculato, condenado por manipulação de dados): Japan Times, CoinDesk. Os verdadeiros autores — denúncia do DOJ contra Bilyuchenko & Verner (~647.000 BTC desde 2011, lavagem via BTC-e): justice.gov, The Record. Reembolso e prazo de out/2026: CoinDesk, CoinMarketCap.